Anita Garibaldi: a mulher que virou heroína em dois mundos

Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em Santa Catarina, viveu em meio às guerras e revoluções do século XIX e morreu muito longe de sua terra natal, perseguida por tropas austríacas.
Entre esses dois extremos, construiu uma história que atravessou o Brasil, o Uruguai e a Itália.
Conhecida como Anita Garibaldi, tornou-se companheira de Giuseppe Garibaldi e participou de episódios importantes da Revolução Farroupilha e das lutas pela unificação italiana.
Sua vida, porém, está cercada de lacunas, versões diferentes e uma boa dose de mito.
Até mesmo seu rosto verdadeiro permanece envolto em incertezas.
E talvez seja justamente isso que torne sua história ainda mais fascinante.
Uma jovem de Laguna
Ana Maria de Jesus Ribeiro nasceu em 30 de agosto de 1821, na região de Morrinhos, então pertencente ao município de Laguna, em Santa Catarina.
Filha de Bento Ribeiro da Silva e Maria Antônia de Jesus, cresceu em uma família modesta.
Depois da morte do pai, sua vida tomou um rumo comum para muitas mulheres daquela época.
Aos 14 anos, em 1835, casou-se com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar.
O casamento, porém, duraria pouco.
Pouco se sabe sobre esses primeiros anos de sua vida.
O que se sabe é que, alguns anos depois, Ana já estava novamente junto da família quando seu caminho se cruzou com um homem que mudaria completamente seu destino.
O encontro com Garibaldi
Giuseppe Garibaldi era italiano, revolucionário e exilado político.
Depois de participar de movimentos pela unificação italiana, foi condenado à morte e deixou a Europa.
Na América do Sul, envolveu-se em conflitos políticos e militares no Brasil e no Uruguai.
Em 1839, chegou a Laguna ligado à luta dos farroupilhas.
Naquele mesmo período, os revolucionários haviam tomado a cidade e proclamado a República Juliana, em Santa Catarina.
Foi ali que conheceu Ana. O encontro foi decisivo.
Garibaldi passou a chamá-la de Anita, uma forma italiana de Ana.
Os dois iniciaram uma relação que duraria até a morte dela, dez anos depois.
A partir daquele momento, a jovem de Laguna deixaria para trás a vida que conhecia e passaria a acompanhar um dos personagens mais inquietos das revoluções do século XIX.
A mulher que entrou na guerra
Anita não ficou simplesmente à margem dos acontecimentos.
Durante os combates em Santa Catarina, participou de episódios que ajudaram a construir sua fama de mulher corajosa.
Na batalha de Imbituba, em 1839, teria participado ativamente do combate.
Durante a luta pela posse de Laguna, também permaneceu próxima dos acontecimentos militares.
Sua presença não se limitava a acompanhar Garibaldi.
Anita transportava munições, enfrentava situações de perigo e, segundo os relatos tradicionais sobre sua vida, chegou a manejar armas durante os combates.
Foi também nesse período que começou a nascer a personagem que, mais tarde, seria transformada em heroína.
A fuga de Curitibanos
Um dos episódios mais conhecidos de sua vida aconteceu durante a retirada das forças farroupilhas.
Em 1840, Anita foi capturada pelas tropas imperiais durante a Batalha de Curitibanos.
Grávida, recebeu a informação de que Garibaldi havia morrido.
Ela não acreditou.
Conseguiu escapar e saiu à procura do companheiro.
Segundo os relatos tradicionais, atravessou a região a cavalo até encontrá-lo vivo em Vacaria.
O episódio tornou-se uma das histórias mais famosas da biografia de Anita.
Depois da derrota dos farroupilhas em Santa Catarina, o casal deixou o Brasil e seguiu para o Uruguai.
Dez anos de guerras e família
No Uruguai, Garibaldi continuou envolvido em conflitos militares.
Anita, por sua vez, viveu uma realidade que misturava maternidade, família e guerra.
Em 1840 nasceu o primeiro filho do casal, Menotti.
Depois vieram outros filhos: Rosa, Teresita e Ricciotti.
Garibaldi e Anita oficializaram a união em Montevidéu, em 1842.
Mas a vida familiar nunca significou tranquilidade.
Garibaldi continuava lutando, e Anita acompanhava aquela existência instável, entre deslocamentos, conflitos e períodos de separação.
Foi também no Uruguai que a fama de Garibaldi cresceu, preparando o caminho para o retorno do revolucionário à Europa.

De volta à Itália
Em 1847, Garibaldi decidiu retornar à Itália para participar das lutas que agitavam a península.
Anita também seguiria para a Europa.
A mulher que havia começado sua trajetória em uma pequena comunidade de Santa Catarina agora atravessava o oceano para viver uma nova etapa de sua história.
Na Itália, voltou a acompanhar Garibaldi nas batalhas.
Em 1849, Roma tornou-se palco de uma das principais etapas da luta pela República Romana. Garibaldi e seus seguidores enfrentaram forças muito superiores.
Anita estava novamente ao lado dele.
A vida, entretanto, estava chegando ao fim.
A última fuga
Em julho de 1849, a República Romana caiu.
Garibaldi e seus homens precisaram abandonar Roma e seguir em direção ao norte, perseguidos por tropas inimigas.
Anita acompanhava o grupo.
Grávida, debilitada e doente, não resistiu à marcha.
Em agosto, já muito enfraquecida, foi levada para uma propriedade rural em Mandriole, na região de Ravena.
Giuseppe Garibaldi tentou encontrar uma maneira de salvá-la.
Não conseguiu.
Anita morreu em 4 de agosto de 1849, aos 27 anos.
Tinha vivido apenas uma década ao lado de Garibaldi, mas essa década havia sido suficiente para transformar uma jovem catarinense em uma personagem conhecida muito além das fronteiras brasileiras.

Representação de Garibaldi carregando Anita durante a fuga / últimos momentos

Representação de Garibaldi carregando Anita durante a fuga / últimos momentos
Uma heroína sem um rosto totalmente conhecido
Existe uma curiosidade particularmente interessante na história de Anita.
Não existe uma fotografia sua.
Portanto, nenhum retrato fotográfico pode nos mostrar com certeza como ela realmente era.
Ao longo dos anos, pinturas e desenhos procuraram representar seu rosto.
Alguns tornaram-se famosos e passaram a ser reproduzidos como se fossem retratos definitivos.
"Retrato de Anita Garibaldi feito em aquarela por Gaetano Gallino (1845, Montevidéu). Esta é considerada a representação mais próxima e fiel de sua verdadeira fisionomia".
A Casa de Anita, em Laguna, conserva um retrato considerado pelos historiadores como o mais fiel à sua aparência.
O museu também destaca que não existem fotografias da heroína, apenas de seus descendentes. (Prefeitura de Laguna).
Isso explica por que Anita aparece com rostos tão diferentes em livros, monumentos, filmes e pinturas.
O curioso é que, enquanto seu rosto permanece incerto, sua trajetória tornou-se cada vez mais conhecida.
Entre a história e o mito
A Anita que chegou até nossos dias é resultado de duas coisas diferentes: os acontecimentos documentados de sua vida e a personagem heroica construída posteriormente.
Alguns relatos a transformaram quase em uma supermulher, capaz de enfrentar qualquer perigo.
Outros procuraram diminuir sua importância, apresentando-a apenas como a companheira de Garibaldi.
Provavelmente, a realidade está entre essas duas versões.
Anita não precisa ser transformada em uma personagem perfeita para que sua história seja extraordinária.
Ela foi uma mulher jovem, viveu em uma época extremamente violenta, teve filhos, atravessou países, acompanhou um revolucionário e participou de conflitos que estavam muito além da vida que poderia ter levado em Laguna.
Isso já é suficiente para explicar por que seu nome atravessou gerações.
A memória de Anita em Laguna e na Itália
Em Laguna, sua memória permanece presente.
A cidade conserva a Casa de Anita, onde ela se vestiu para o primeiro casamento, em 1835.
O local hoje integra o patrimônio histórico da cidade e abriga objetos e informações relacionados à sua trajetória.
Também existe o Museu Histórico Anita Garibaldi, instalado no antigo prédio da Câmara e Cadeia, local ligado à proclamação da República Juliana em 1839.
Na Itália, sua memória também permanece ligada à de Garibaldi e às lutas pela unificação italiana.
Seu nome passou a ser utilizado em municípios, ruas, monumentos e instituições, tanto no Brasil quanto na Itália.

Anita Garibaldi no cinema e na televisão
A história de Anita também chegou às telas.
Sua trajetória foi retratada na minissérie A Casa das Sete Mulheres, exibida pela TV Globo em 2003, baseada no romance de Leticia Wierzchowski.
No cinema, Anita também foi representada em produções dedicadas à sua vida e à relação com Garibaldi.
Não é difícil entender o interesse do cinema pela personagem.
Sua história reúne amor, guerra, revolução, fuga, viagens, maternidade e morte — elementos que parecem feitos para uma narrativa cinematográfica.
Mas existe uma diferença entre a personagem do cinema e a mulher que realmente viveu no século XIX.
Quanto mais conhecemos as lacunas da documentação, mais interessante se torna separar Anita Garibaldi da lenda criada em torno dela.
Afinal, quem foi Anita Garibaldi?
Anita Garibaldi morreu aos 27 anos.
Não viveu o suficiente para conhecer a dimensão que seu nome alcançaria posteriormente.
Foi uma mulher de seu tempo, mas acabou se tornando uma personagem que ultrapassou seu próprio tempo.
Nasceu em Santa Catarina, conheceu a guerra no Brasil, viveu no Uruguai e morreu na Itália.
Amou, teve filhos, fugiu, lutou, acompanhou batalhas e enfrentou uma vida que dificilmente poderia ser chamada de comum.
Talvez seja por isso que o título de “Heroína dos Dois Mundos” tenha sobrevivido por tanto tempo.
Não apenas porque Anita esteve no Brasil e na Itália, mas porque sua vida ficou ligada a dois momentos históricos diferentes: as revoltas republicanas da América do Sul e as lutas pela unificação italiana.
Resumo
A história de Anita Garibaldi começa com uma jovem chamada Ana Maria de Jesus Ribeiro, nascida em Santa Catarina, e termina muito longe de sua terra natal, na Itália.
Entre esses dois pontos existe uma vida marcada por guerras, revoluções, viagens, maternidade e coragem.
Ao lado de Giuseppe Garibaldi, Anita participou de acontecimentos importantes no Brasil e na Itália e acabou transformada em um dos grandes símbolos femininos das lutas revolucionárias do século XIX.
Mas talvez a parte mais curiosa de sua história seja justamente aquilo que não sabemos.
Seu rosto verdadeiro permanece sem registro fotográfico, sua biografia possui lacunas e muitos episódios foram ampliados pela tradição.
Entre a mulher real e a heroína criada pela memória popular, existe uma personagem histórica que continua despertando curiosidade quase dois séculos depois.
Ana Maria de Jesus Ribeiro, a Anita Garibaldi, morreu aos 27 anos.
Sua vida foi curta. Sua história, não.









