A menina de vermelho, a lista real e o homem imperfeito que salvou mais de mil vidas
Quando "A Lista de Schindler" começa, há algo que imediatamente chama a atenção: a história está em preto e branco.
Para quem assiste pela primeira vez, pode até parecer que existe algum problema na televisão.
Mas não.
Steven Spielberg fez uma escolha deliberada.
Em meio àquela fotografia quase documental, uma pequena figura surge em uma única cor: uma menina usando um casaco vermelho.
Quem é aquela criança?
E por que Spielberg decidiu que justamente ela deveria aparecer colorida?
Essas perguntas fazem parte do mistério de um dos filmes mais marcantes sobre o Holocausto.
Mas existe outra questão ainda mais interessante: quem foi, de fato, Oskar Schindler?
O homem que não parecia um herói
Oskar Schindler nasceu em 1908, na então Áustria-Hungria, e cresceu em uma família de origem alemã. Antes da Segunda Guerra Mundial, sua trajetória estava muito distante da imagem de um salvador.
Schindler era um homem ambicioso, gostava de dinheiro, bebidas e mulheres.
Espiava para a inteligência militar alemã e, em 1939, após a invasão da Polônia, mudou-se para Cracóvia. Ali encontrou uma oportunidade de enriquecer.

Assumiu uma fábrica de utensílios esmaltados, a futura "Emalia", e passou a utilizar trabalhadores judeus forçados porque eram mais baratos. Seu interesse inicial era, essencialmente, empresarial.

Assumiu uma fábrica de utensílios esmaltados, a futura "Emalia", e passou a utilizar trabalhadores judeus forçados porque eram mais baratos. Seu interesse inicial era, essencialmente, empresarial.
Mas alguma coisa começou a mudar.
Os relatos de sobreviventes mostram que Schindler tratava seus trabalhadores judeus de maneira muito melhor do que era comum naquele sistema brutal.
Com o tempo, sua preocupação deixou de ser apenas o funcionamento da fábrica.
Ele passou a utilizar sua influência, seus contatos e seu dinheiro para proteger aquelas pessoas.
A transformação não aconteceu de uma hora para outra. Foi gradual.
Fábrica de esmaltados administrada por Schindler, um dos locais de filmagem do filme.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Oskar Schindler dirigiu uma fábrica de utensílios esmaltados e empregou judeus, alguns dos quais ele salvou de campos de concentração. O local serviu de cenário para diversas cenas do filme. Atualmente, o local abriga um museu.
O amigo de um dos homens mais cruéis
Entre as figuras mais assustadoras daquela história estava Amon Göth, comandante do campo de Plaszow.
Göth era conhecido pela violência arbitrária e pelos assassinatos de prisioneiros. Schindler, entretanto, aproximou-se dele. Os dois chegaram a frequentar festas juntos.
Pode parecer absurdo. Mas Schindler utilizou essa relação, além de subornos, para conseguir favores que ajudavam a proteger seus trabalhadores judeus.


Comandante do campo de Plaszow, Amon Göth(Foto)
O oficial nazista da SS Amon Göth, o infame comandante do campo de Plaszow na Polônia ocupada pelos alemães , na varanda de sua casa perto do campo. Cracóvia, Polônia, entre fevereiro de 1943 e setembro de 1944.
Créditos: USHMM, cortesia da Coleção Fotográfica Leopold Page
Museu Memorial do Holocausto dos EUA
O oficial nazista da SS Amon Göth, o infame comandante do campo de Plaszow na Polônia ocupada pelos alemães , na varanda de sua casa perto do campo. Cracóvia, Polônia, entre fevereiro de 1943 e setembro de 1944.
Créditos: USHMM, cortesia da Coleção Fotográfica Leopold Page
Museu Memorial do Holocausto dos EUA
Quando o gueto de Cracóvia foi liquidado, em março de 1943, Schindler conseguiu proteger parte de seus trabalhadores mantendo-os dentro da fábrica durante aquela noite. Mais tarde, conseguiu que muitos deles fossem alojados em condições muito melhores do que as existentes no campo principal de Plaszow.
Era um jogo extremamente perigoso. Schindler continuava sendo um homem ligado ao sistema nazista, mas agora estava usando esse mesmo sistema para salvar pessoas perseguidas por ele.


A famosa “Lista”
É aqui que o filme toma uma liberdade importante.
A imagem criada pelo cinema é a de Schindler elaborando sua famosa lista de nomes, decidindo quem seria salvo. A realidade foi mais complicada.
Não existiu simplesmente uma única lista escrita por Oskar Schindler.
Havia listas de transferência de prisioneiros de Plaszow para Brünnlitz, e elas foram preparadas dentro da estrutura do próprio campo.

Marcel Goldberg, um prisioneiro judeu que trabalhava como escriturário para a SS, teve participação na elaboração dessas listas.

Marcel Goldberg, um prisioneiro judeu que trabalhava como escriturário para a SS, teve participação na elaboração dessas listas.
Os nomes mudaram diversas vezes.
Algumas pessoas foram incluídas por serem trabalhadores, outras por serem familiares de trabalhadores, e houve também casos de pessoas que conseguiram entrar mediante suborno ou simplesmente por circunstâncias favoráveis.
Schindler teve um papel importante no processo de transferência, mas "não foi o homem que simplesmente sentou e escreveu uma lista com todos os nomes que queria salvar".
A versão cinematográfica é muito mais dramática.
A história real é mais confusa — e talvez até mais interessante.
Brünnlitz: quando Schindler colocou tudo em risco
Em 1944, Schindler conseguiu transferir sua fábrica para Brünnlitz, nos Sudetos.
O local era um subcampo de Gross-Rosen.
Cerca de mil prisioneiros judeus foram transferidos para lá, e para muitos deles aquilo representava uma chance muito maior de sobrevivência.
Foi nessa fase que Schindler passou a gastar a fortuna que havia acumulado durante a guerra para conseguir alimentos, medicamentos e outras coisas necessárias aos prisioneiros.
A fábrica deveria produzir armamentos para a Alemanha.
Mas havia um problema. A produção real era muito pequena.

Schindler e alguns de seus colaboradores chegaram a falsificar números de produção para convencer as autoridades de que a fábrica era importante para o esforço de guerra alemão.

Schindler e alguns de seus colaboradores chegaram a falsificar números de produção para convencer as autoridades de que a fábrica era importante para o esforço de guerra alemão.
A estratégia ajudava a impedir que o campo fosse fechado e seus prisioneiros enviados para outros lugares.
Em outras palavras, a fábrica que deveria ajudar a Alemanha a vencer a guerra tornou-se, na prática, uma forma de manter aquelas pessoas vivas.
Quando a guerra terminou, aproximadamente 1.100 prisioneiros estavam relacionados à lista de Brünnlitz.
E a menina de vermelho?
Voltamos agora àquela pequena figura que aparece no meio do filme.
A menina de vermelho não é apresentada como uma personagem histórica específica cuja existência tenha sido comprovada. Ela é uma criação cinematográfica.
É improvável que Schindler tenha presenciado um momento decisivo envolvendo uma menina de casaco vermelho que o teria levado a mudar de atitude.
Ou seja, a menina não foi a causa histórica da transformação de Schindler.
Ela funciona como um poderoso recurso de linguagem cinematográfica.
Em meio ao preto e branco, aquela pequena mancha vermelha chama nossa atenção para uma criança indefesa no meio da violência. É como se Spielberg dissesse ao espectador: "olhe para ela".

E existe uma consequência ainda mais forte.

E existe uma consequência ainda mais forte.
Depois de vermos aquela menina caminhando sozinha entre a multidão, a violência deixa de parecer apenas uma sucessão de números e acontecimentos históricos. Passa a ter um rosto.
É uma das imagens mais lembradas do filme.
Schindler foi um herói?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil.
Porque a resposta não é simplesmente “sim”.
Schindler não era santo. Seu passado incluía espionagem, oportunismo, relações extraconjugais e participação no Partido Nazista.
Algumas de suas atividades anteriores e iniciais durante a guerra foram claramente ligadas ao sistema de ocupação alemão.
Oskar Schindler (ao centro) se diverte em um jantar com oficiais nazistas em Cracóvia, em 28 de abril de 1942.
Ele utilizou dinheiro, influência e contatos pessoais para proteger judeus.
Arriscou sua posição. Gastou sua fortuna. Enganou autoridades nazistas. E ajudou a manter vivos mais de mil prisioneiros.
Sua condição de salvador chegou a ser controversa, inclusive quando seu nome foi considerado para a homenagem de "Justo entre as Nações".
Em 1993, porém, Oskar e Emilie Schindler receberam oficialmente essa distinção.
A história, portanto, não é a de um homem perfeito que descobriu subitamente o heroísmo.
É a história de um homem cheio de contradições que, em determinado momento, decidiu usar suas próprias características — dinheiro, influência, contatos e capacidade de negociação — para proteger pessoas que estavam sendo perseguidas e assassinadas.
A história que sobreviveu ao homem
Oskar Schindler morreu em 1974.
Mas sua história poderia facilmente ter desaparecido.
Não fosse a persistência de alguns dos judeus que ele ajudou.
Um deles foi Leopold Page, que durante décadas contou a história de seu antigo salvador. Em 1980, o escritor australiano Thomas Keneally entrou na loja de Page em Beverly Hills para comprar uma pasta.
Page contou-lhe a história.
Keneally ouviu. E aquela conversa acabou levando à publicação, em 1982, do livro "A Arca de Schindler", que posteriormente inspiraria o filme de Spielberg.


Homenagem a Oskar Schindler em Yad Vashem(Foto)
Na década de 1960, Schindler foi convidado por Yad Vashem para plantar uma árvore em sua homenagem. A cerimônia de plantio ocorreu em 8 de maio de 1962. Em 1993, Oskar e Emilie Schindler foram nomeados Justos entre as Nações, uma distinção concedida por Yad Vashem a pessoas não judias que arriscaram suas vidas para ajudar judeus durante o Holocausto.
Créditos: Museu Memorial do Holocausto dos EUA, cortesia da Coleção Fotográfica Leopold Page
Em 1993, A Lista de Schindler levou essa história para o mundo inteiro.
O filme ganhou sete Oscars e transformou Oskar Schindler em um dos nomes mais conhecidos associados ao resgate de judeus durante o Holocausto.
Mas talvez a maior ironia esteja no fim.
Os homens e mulheres que Schindler ajudou a salvar também ajudaram a salvar Schindler.
Nos últimos dias da guerra, alguns dos chamados “Judeus de Schindler” ajudaram a protegê-lo quando ele precisava fugir.


Oskar Schindler
Placa em homenagem a Oskar Schindler, perto da Estação Ferroviária Central de Frankfurt, Alemanha.
Frank Behnsen Creative Commons Atribuição Compartilha Igual 3.0 (Genérico)
Porque, no cinema, temos um salvador.
Na realidade, encontramos algo muito mais humano:
Um homem contraditório, cheio de defeitos, que em uma das épocas mais sombrias da história decidiu salvar outras pessoas — e acabou sendo salvo por algumas delas.









